"Por mim, se provada a culpa do casal, eles podiam pegar
uma pena alternativa do tipo adotar a Suzane Von Richtofen".
Quem conhecer o autor, por favor, me apresente.
Achei genial.
[vc sonhava acordada
um jeito de não sentir dor
prendia o choro e aguava o bom do amor]
Saí do trabalho e fui direto à manicure. Esta tem sido
minha happy hour, nova rotina instalada, às sextas, depois
do expediente.
O lugar é meio esculhambadão, mas limpo e iluminado.
Inspira uma certa confiança.
Maluca do Alicate é ótima.
Quando erra, não arranca bife. Corta filé. Pede
desculpas e acha por bem trocar o alicate cego por outro
mais afiado (!!), cantarolando Cazuza bem baixinho.
Sabe uma pessoa fofa?
Trust me.
Maluca do Alicate puxa assuntos agradáveis, conhece mesmo
o perfil da clientela. Tipo esmaltes de secagem rápida,
tendências de cores para outono/inverno, odeia essa
invasão insana dos azuis e/ou roxos cintilantes e fala com
uma elegância ímpar de seus ex-amores. Dá gosto de
ouvir.
11/04 - Lição 1: raciocínios aparentemente ogros
podem, em alguns casos, facilitar um bocado a porra dessa
nossa vida falsamente genial.
Srta Loirinha-Simpatica-Toda-Vida, enquanto pintava as unhas
de framboesa do outro lado do salão berrava com
Coleguinha-Blasé, lamentando que Cunhada-Acabou-De-Casar
chegou ontem da Europa, com notícia péssima: o tal
esmalte de secagem rápida não chega tão cedo ao
Brasil.
Bo-a-to forte, tolinha!, protesto eu, em pensamento.
Minha colaboração na conversa foi jogar um dado atual,
relevante e verdadeiro, tipo oi, é da Bourjois, tem na
Droga Raia e na Drogaria Iguatemi do MP, em diversas cores e
seca mesmo em 30 segundos. Coisa incrível, em que planeta
vc nasceu?
Julguei que falar sobre preço seria irrelevante. Pra não
dizer indelicado.
Ao meu lado, a Sou-Pirulona-Mas-Queria-Tanto-Ser-Feliz, que
pintava suas imensas unhas de
vermelho-sangue-Ó-positivo-e-operante corrigiu minha
pronúncia, com voz de enfado e cara de bunda, enquanto
folheava uma Contigo!.
11/04 - Lição 2: Não há nada de tão errado ou
perverso assim em odiar com requintes pessoas pirulonas com
voz de enfado e cara de bunda. Ok?
13/04 - Lição 3: Falar mal de ex-amor pode ser muito
divertido. Eu nunca tinha feito isso, não desse jeito.
Tipo chamar de traste. Mas tem que ser com a manicure.
Enquanto pinta as unhas de rubi. Óbvio.
[você sonhava acordada
um jeito de não sentir dor
prendia o choro e aguava o bom do amor]
13/04 - Lição 4: Eu sempre achei que essa letra era do
Luiz Melodia, considerando que sempre odiei Cazuza.
13/04 - Lição 5: Eu sou uma besta.
14/04 - Lição 6: Segunda-feira chegou. O dia ainda nem
amanheceu. Chove torrencialmente em Sampa e eu não consigo
dormir. Consigo ouvir os trovões.
Eu vou me ferrar, eu sei.


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Jerry Seinfeld Walks Away from Rollover Car Crash - Health, Jerry Seinfeld : People.com
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Comecei a considerar seriamente a hipótese de dormir em um
motel.
Me pareceu uma idéia bastante razoável, dadas as
circunstâncias e o adiantado da hora.
Parei na portaria de um que me pareceu ser um motel de
família.
Concluí que não iria pagar 190 reais por 5 ou 6 horas de
sono. Desaforo.
Confesso, o dia e a noite estavam tão truncados que não
era hora de brincar com a sorte, Tive medo.
Um dia, eu juro, só de brincadeira vou dormir sozinha num
motel e conto tudo pra vocês.
Naquela noite, não.
Dei meia volta.
Cogitei dormir na casa da minha mãe. Daí eu me imaginei
ligando pra ela, em plena madrugada. Ciça Mãe ainda
está traumatizada com o telefonema do falso sequestro da
Olívia. Caso eu ligasse, talvez hoje eu não tivesse uma
mãe morta, mas certamente uma mãe com a saúde bastante
debilitada.
Resolvi preservá-la.
Estacionei na garagem de casa e me joguei no banco de trás
do Caveirão.
Enquanto não conseguia dormir, me diverti um bocado.
Ouvi música, li a Capricho da quinzena passada, pensei nas
mazelas da minha vida e no quanto eu preciso ser mais
atenta a alguns detalhes cotidianos, tipo chave de casa, por
exemplo.
Ódio mortal de mim.
Tentei dormir e obviamente não consegui.
Passei por aquele tormento que é cochilar sonhando e
acordar sem saber se sonhou ou o que foi. Delírios.
Pensei que sonhos fossem verdade. Enganos.
Quase ao amanhecer, o tempo esfriou muito.
Quase congelei.
Abri o porta-mala do carro, alcancei a mochila da academia.
Calcei minhas meias. Clamei por cobertas. Não havia.
Tentei dormi. Frio. Muito frio.
Alguma fome também. Tentei abstrair.
Acordei, já havia alguma luz do sol.
Mas ainda era cedo.
Meu corpo doía, eu estava exausta, gelada e tensa.
E o frio me atormentava. Eu queria minhas gotinhas mágicas
de criar sono.
Tentei ouvir um pouco de rádio, mas não.
Não rolou.
Imaginei que eu deveria me sentir uma mulher feliz.
Eu era uma homeless abrigada.
Caveirão havia se transformado no puxadinho lá de casa.
Poucas pessoas têm esse privilégio, eu tinha mesmo era
que agradecer.
Eu estava congelando com minha roupa pequena, mas eu tinha
que aguentar mais um pouco, ainda não eram oito horas, eu
tinha que fugir das tarifas noturnas dos chaveiros 24 horas,
aqueles exploradores da desgraça alheia.
O pior já havia passado.
Seja homem quando for preciso, Ana - me aconselhou uma vez
um ex-amor.
Comecei a observar em volta. Meu carro estava uma zona.
Sandálias de salto no lado do passageiro, roupas de
ginástica usadas inutilmente como coberta, a rosa vermelha
que ganhei murchando no painel, o pão de batata com frango
de sexta, que sabiamente não comi.
Escondida no carro, vi a vizinha do 14o saindo, talvez para
passear.
Sempre a achei uma idiota. Mas era uma idiota que, sem
dúvida, dormiu protegida em lençóis limpos e estava de
banho tomado.
Merda.
Fui até a padaria, pedi vitamina de frutas, pão na chapa
com queijo branco e café quentinho.
Voltei a me sentir humana.
Enquanto isso, eu pensava: preciso de cópias de chaves,
muitas, muitas. Quantas o meu dinheiro puder comprar.
E preciso também criar ambiente mais favorável pra
Caveirão.
Tipo cobertor Parayba, travesseirinho portátil e comida
liofilizada no porta-mala, porque o inverno tá logo aí.
E nunca se sabe o dia de amanhã.
E vou ter que distribuir chaves: uma pra mim, outra pra Oli,
outra pra morar no Caveirão, outra pra Ciça Mãe, uma
pra deixar na firma, uma pra sortear entre os amigos e outra
pra dar pra alguém que teje pricisanu.
Acabou a fase da miséria de chaves aqui em casa.
Passado o pesadelo e pouco antes de dormir, subi até a
floricultura.
Comprei rosas brancas para o meu banho. Porque era sábado,
dia de faxina pesada e eu tava precisando.
Na academia, três surpresas e uma decepção.
Mensalidade com aumento quase nulo, anteciparam minha
avaliação física que seria só em maio e uma sessão
de massagem como cortesia. Amei.
De brinde, um squeeze :/ (eu falei que tinha sido um dia
quase perfeito)
Tudo bem que é um squeeze importado, suíço.
Eu não entendo nada de squeezes. Mas olhando pra ele, posso
imaginar que se trata de uma espécie de Victorino no
universo dos squeezes mais cobiçados.
Posso até me ver andando de bike pelo parque, as pessoas
apontando para mim e comentando:
- Olha, aquela moça tem um sigg!
- Poderosa, hein?
- Olha que luxo, e o sigg combina com suas unhas vermelhas!
- Aonde ela pensa que vai com esse sigg? Metida!
Eu sei, posso arrasar corações e causar inveja, assim que decidir
seriamente a me dedicar a atividades aeróbicas com algum
empenho.
Mas eu queria tanto o roupão.
Soquei o squeeze vermelho na bolsa e fui ao cinema.

Ligaram da academia. Queriam saber porque não tenho levado
mais meu corpinho para pegar um tônus, como eu fazia
antes.
Decidi voltar de vez e pronto.
Cansei desse eterno voltar à estaca zero E também vou
parar de reclamar tanto das coisas, tentar ser um pouquinho
mais tolerante com as pessoas.
Só não dá pra imaginar o que tem na cabeça um
desqualificado capaz de servir vagem com coentro.
Não dá.
: )
Mas o que eu queria mesmo contar é que, pela primeira vez
na minha vida, eu sentei à mesma mesa com uma bolsa Prada.
Lin-da-a.
Fiquei com a impressão de que até o barulho do fecho tem
sotaque.
Te juro.
Alê é mesmo puro luxo, poder e riqueza.
:O)
Desculpa aê. :)
Contei do meu voto imaginário de celibato, com opção
de clausura.
Ao que ele respondeu:
- Ora, vá-te à porra!
- Num vou a nenhum lugar que insinue algum conteúdo
sexual, acabei de dizer: clausura é o que me resta.
Perdão pela piada interna. Não resisti.
Voltemos à vaca fria.

