18 dezembro, 2009

O garoto triste e a gaita perdida.

Da arte de (quase) perder amigos – Parte I.


- Eles eram muito amigos. Não aqueles amigos de longa

data. Mas foram fiéis companheiros de masmorra e açoite por

madrugadas a fio, nos tempos de trabalho árduo na

Máquina de Moer Ossos. A lealdade se estendia também aos

momentos de alento, nas maratonas improváveis, vagando

pela cidade, contando as mazelas da vida e do coração,

afogando mágoas diversas e fechando bares até o dia amanhecer, em

busca da saideira perfeita. “Não perdoe quem lhe deu uma facada nas costas, apenas porque outro alguém lhe deu dois tiros no coração depois”, ela lhe ensinara uma vez. Ele aprendeu.

Escolhas e destinos encarregaram-se de separá-los temporariamente.

Ela foi trabalhar numa obscura Mina de Carvão em um bairro

distante. Bem mais tarde, obteve a dádiva de ser convidada

a trabalhar na torre de marfim de um pequeno Castelo

Encantado, do outro lado da ponte. A vida voltou-lhe a ser gentil.

Ele, aproveitando a larga experiência em rolling playing, aprimorou-se com

esmero e competência no ofício de mentor e comandante de um pequeno

exército de jovens obstinados.


Há alguns meses, os dois amigos se reencontram numa

noite de chuva fraca, trânsito lento e temperatura amena.

Tudo tornou-se especialmente alegre, em nome dos velhos

tempos. Colocaram muitos assuntos em dia, boas histórias foram

contadas entre goles de bom vinho e longas gargalhadas. Aderiram à

prática vulgar da fofoca rasteira e do escutar conversas da mesa ao lado. Ao final de mais uma madrugada ébria, combinaram de se encontrar novamente dali a um ano.

Cada um seguiu seu rumo e, ao virar a primeira esquina a caminho de casa, ela notou que ele deixara cair acidentalmente a gaita mais estimada,

entre o banco do passageiro e o freio de mão.  

      

No primeiro dia útil em que foi possível trocarem

mensagens instantâneas, ele, temendo pela resposta,

perguntou se, por acaso, a gaita teria ficado no carro dela.

Se tivesse caído no restaurante, já era. Aliviado com a

afirmativa, ele ressaltou, enfático, que a devolução

da gaita não estava inclusa no pacote de coisas que ficaram

combinadas para o próximo encontro. - Um ano é muito

tempo, vamos deixar minha gaita fora disso, ele alegou

sabiamente.

Ela, cruel e indiferente, tripudiou da aflição do dileto

amigo. Vazou. Ficou um bom tempo sem dar as caras ou uma notícia sequer.

Assoberbada pelo excesso de afazeres ela estava. Usou uma

vez a argumentação manjada para o sumiço e a indiferença.


Ele seguia a vida. Porém sem nunca entender, quase dois

meses depois, porque inexplicavelmente lhe estava sendo

negada devolução da sua tão querida gaita, por sua

tão estimada amiga. Mas a vida dele seguia mesmo em

frente. E cada vez que amigos o convidavam para uma festa,

ou para uma pequena reunião, ou mesmo quando estava sozinho em casa, ele lembrava-se com saudades da gaita e com uma certa raivinha da amiga

ingrata. Ela não toca gaita, afinal. Nunca se interessou por gaitas. Não tem fetiches por gaitistas. É até provável que odeie gaitas. E gaitistas e gaiatos em geral. Chegou a cogitar que ela tivesse jogado sua gaita pela janela. Trocado por barbitúricos. Doado para a faxineira. Ou que houvessem tantas outras gaitas misturadas em sua lotada gaveta de achados e perdidos, que talvez ela nem soubesse mais qual era de quem. Vaca.


Passaram-se mais de dois meses e ela permanecia blasé com

respostas evasivas, frases clichês, acenos de encontros para devolução, lançados displicentemente do alto de sua torre.


Ele estava a um passo de começar a odiá-la com força.

Fez uma última tentativa de negociação: - Leve a

minha gaita para sua torre de marfim no pequeno Castelo

Encantado e eu mando um mensageiro buscar. Simples assim.

Cheia de orgulho e brios, a moça respondeu que ela mesma

se encarregaria de providenciar o mensageiro, fazia questão e

blá-blá.


Não se sabe até hoje se por leviandade, falta de consideração e descaso, nunca conseguia se lembrar de levar a gaita da discórdia para o Castelo Encantando, a princesinha avoada. Alegava esquecimento  e o tal do estresse. Na prática, não se importava com nada que orbitasse dois metros  adiante do seu umbigo perfeito.


Até onde se tem notícia, ele ainda se pergunta porque

ela insiste em manter confiscado um mero troféu do acaso. Sem função

e sem significado.


Enquanto ela ainda até hoje se pergunta: o que pode haver de tão

importante naquela gaita tosca? Que cara mimadinho..,


-       Mas ela devolveu a gaita?

-       Até onde eu sei, não. É bem provável que tenha trocado por barbitúricos.



Nenhum comentário: